O ano de 2026 carrega para mim um peso especial: é o ano em que, completarei 80 anos. Sempre enxerguei a vida dividida em duas margens. Em uma delas, a cada virada do ano, lançamos desejos ao futuro, traçamos planos e projetos — muitos que o tempo, silenciosamente, não nos permitirá cumprir.
Na outra margem, junto ao grupo ao qual pertenço, voltamos o olhar para trás e avaliamos o caminho percorrido. É desse exercício de lembrança que nasce a decisão de registrar minha trajetória. Faço isso sem ordem, fora da linha do tempo, deixando que as memórias me encontrem quando quiserem. Coisas de quem já caminhou bastante.
Meu Escrever
Memórias
sábado, 29 de agosto de 2026
“Sonho”, mas foi real
Na minha apresentação, mencionei que registraria minhas memórias de maneira aleatória, sem a preocupação de obedecer à cronologia dos acontecimentos. Afinal, com o passar dos anos, as lembranças não seguem uma ordem. Elas surgem como flashes, inesperadamente, em momentos diversos — muitas vezes durante as noites de insônia, quando o silêncio parece abrir espaço para que o passado volte a nos visitar.
Foi assim esta noite.
Na tentativa de encontrar o sono, fechei os olhos e, quase como num sonho, vislumbrei um menino remendando um barco, com um sorriso estampado no rosto. Era uma criança diante de uma situação que, para os adultos, certamente representava medo e preocupação. Mas, para ele, tudo parecia uma grande aventura.
Talvez essa seja uma das magias da infância: a capacidade de transformar o inesperado em brincadeira, o medo em curiosidade e, até mesmo diante de uma tragédia, encontrar algum motivo para sorrir.
Aquele menino era eu.
A lembrança me levou de volta a uma época em que a cidade enfrentava mais uma de suas enchentes. A água avançava por diversos bairros e, entre eles, estava aquele onde morávamos. As famílias atingidas eram encaminhadas para uma escola, que havia sido transformada em abrigo.
Para nós, crianças, entretanto, a percepção era outra.
Ao chegar à escola, encontrei vários colegas. O que para os adultos era uma tragédia, para nós começava a ganhar contornos de uma inesperada colônia de férias. Estávamos juntos, longe da rotina de casa e, apesar das circunstâncias, descobríamos maneiras de brincar, conversar e rir.
Mas havia um acontecimento que nos deixava especialmente eufóricos: a chegada do caminhão do Exército.
Era quase um evento.
Dele vinham o café com leite, o pão com manteiga e, na hora do almoço, uma massa parafuso com carne moída que, para nós, parecia a mais deliciosa das refeições. Talvez o sabor estivesse menos na comida e mais naquele momento compartilhado, na sensação de estarmos juntos e na alegria simples que uma criança consegue encontrar mesmo em meio às dificuldades.
Hoje, tantos anos depois, percebo que aquela lembrança carrega uma lição que só o tempo foi capaz de me revelar.
A vida, assim como aquela enchente, às vezes transborda, invade nossos caminhos e nos coloca diante de situações que não escolhemos. Nem sempre podemos controlar as águas que chegam, mas podemos escolher como enfrentá-las.
Naquela época, eu ainda não sabia disso. Apenas sorria, brincava e seguia em frente.
domingo, 28 de junho de 2026
MUDANÇA
Não sei se por carência, sempre busquei a autoafirmação. Acreditei que,
através da minha facilidade em me relacionar com mulheres, encontraria uma
forma de superação. Tive diversos relacionamentos — alguns breves, outros
duradouros — e muitos deles aconteceram em paralelo, sem que eu me preocupasse
com a intensidade com que essas pessoas consideravam a relação.
Hoje, olhando para trás, gostaria de agradecer a cada uma pelos momentos de
prazer e, sobretudo, pelas lições que me fizeram crescer e me tornar mais
humano. Também quero pedir desculpas, de coração, por não ter dado a devida
atenção ao valor que cada uma dessas histórias tinha.
Todas permanecem vivas na minha memória, como parte essencial da minha
trajetória e da pessoa que sou hoje.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Foto pesquisada gentilmente por Gilberto Castro
Meus agradecimento ao Grupo Rosário do Sul Antigo
ESTAÇÃO FERROVIÁRIA
Uma imagem que frequentemente vem à minha memória
é a da antiga Estação Ferroviária de Rosário do Sul, nos anos 1960. A
edificação, que marcou uma época na história da cidade, muitas vezes
transformava-se em um verdadeiro parque de diversões para um grupo de jovens
que se aventurava pelos vagões estacionados no pátio de manobras, para
desespero dos ferroviários encarregados da vigilância.
Em sua gare, o movimento de chegadas e partidas
era intenso. Muitos desembarcavam com a esperança de construir uma nova vida e
encontrar dias melhores. Outros partiam em busca de oportunidades, seja no
campo profissional, cultural ou acadêmico. A estação era, acima de tudo, um
ponto de encontro entre sonhos, despedidas e recomeços.
Na primavera, esse mesmo espaço recebia um
público diferenciado. Jovens estudantes de toda a Fronteira Oeste chegavam para
participar dos tradicionais Jogos Intermunicipais da Primavera,
uma verdadeira olimpíada regional que reunia modalidades esportivas coletivas e
individuais. Durante esse período, surgiam novas amizades, nasciam amores e
eram compartilhadas experiências que ficariam guardadas para sempre na memória
dos participantes. Alguns desses vínculos duravam apenas o tempo das
competições; outros permaneciam por muitos anos.
Após dias de disputas marcadas por suor,
dedicação, superação e espírito esportivo, chegava o momento das despedidas.
Vitórias eram celebradas, derrotas transformavam-se em aprendizado, e todos
retornavam para suas cidades levando consigo histórias para contar. O cenário
era o mesmo da chegada: a Estação Ferroviária. Não era um adeus, mas apenas um
“até logo”.
Este relato registra apenas alguns dos inúmeros
episódios vividos nesse prédio que hoje parece esquecido pela história. Durante
décadas, a estação desempenhou papel fundamental no desenvolvimento econômico,
social e turístico de Rosário do Sul. Por isso, surge uma reflexão: por que não
transformar esse espaço em um centro de memória, capaz de contar sua própria
história e preservar as lembranças de tantas gerações que por ali passaram?
Resgatar esse patrimônio é também valorizar a identidade e a trajetória de
nossa comunidade.
Iedo Jaques
terça-feira, 31 de março de 2026
Figuira
Figueira
Ontem fiz um tour em minha
playlist, vieram lembranças de diversos momentos da vida. Mas uma prazerosa foi
a da ´´Figueira`` uma arvore centenária com dezena de metros de diâmetro,
durante o dia nos protegia do sol de verão, as noites era o palco para apresentação
do grupo de amigos, diga-se grandes interpretes das musicas de sucesso da
época, destaque para Ezequiel dedilhando seu violão enquanto Paulinho emprestava
sua voz as canções que embalavam a época. Quando entoava a ´´Canzone Per Te`` parecia
que o próprio Festival de Sanremo era exibido para um pequeno grupo em um
espetáculo íntimo e inesquecível. Este grupo
composto de uma dezena de amigos e amigas estudavam a noite no único GINASIO, que
hoje corresponde ao segundo grau, ficava a quilômetros da onde morávamos, e
claro íamos juntos e voltávamos juntos mesmo que por alguma razão saíssem mais
cedo que outros. Fazíamos este percurso, com alegria, cantando, fazendo
pegadinhas para os mais medrosos, em ruas com pouca iluminação. O tempo passou
mas a arvore permanece viva na memória, como testemunha silenciosa de uma época
em que a amizade e a musica se entrelaçam em noites inesquecíveis.
segunda-feira, 23 de março de 2026
. A música no meu dia a dia
Um dos fatores que mais estimulam minha
memória é a música. Cada faixa da minha playlist está ligada a um episódio
marcante da minha vida.
Como já comentei, eu morava em uma pequena
cidade onde praticamente não havia oportunidades de emprego. Chegou então o
momento em que nasceu o desejo de novas perspectivas. Vieram as perguntas
inevitáveis: O que fazer? Para onde ir? — e essas reflexões tinham uma
trilha sonora: “Sentado à Beira do Caminho”.
As respostas surgiram naturalmente: a capital,
onde as possibilidades de trabalho eram reais. Assim, um grupo de amigos partiu
rumo ao desconhecido, embalados pelo som de “120, 150, 200 km por hora”,
deixando para trás histórias e aventuras amorosas que guardo com carinho e
respeito.
No fim de cada dia, nos reuníamos em um bar,
sempre acompanhados pela música que ecoava da velha máquina: “Porque Chora a
Tarde”. Ali fazíamos o balanço da nossa busca por emprego. Quinze dias
depois, todos estávamos empregados.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
SAUDADE
Ouvi, ao longe, uma música gaúcha — Idas e Vindas — e, como quem não pede licença
à memória, fui tomado pela saudade da minha cidade natal, uma pequena cidade do
interior do Rio Grande do Sul.
A melodia abriu portas antigas, daquelas que o tempo insiste em manter
entreabertas.
E então surgiu a pergunta, silenciosa e
insistente:
como é possível sentir saudade de uma fase da vida marcada por tantas
dificuldades?
Escassez financeira, fragilidade na estrutura familiar, o peso da discriminação
social.
Dias em que faltava quase tudo — inclusive perspectivas de conquistas mínimas,
dignas apenas de sobreviver.
Ainda assim, a saudade veio.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
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