sábado, 29 de agosto de 2026

“Sonho”, mas foi real

Na minha apresentação, mencionei que registraria minhas memórias de maneira aleatória, sem a preocupação de obedecer à cronologia dos acontecimentos. Afinal, com o passar dos anos, as lembranças não seguem uma ordem. Elas surgem como flashes, inesperadamente, em momentos diversos — muitas vezes durante as noites de insônia, quando o silêncio parece abrir espaço para que o passado volte a nos visitar.

Foi assim esta noite.

Na tentativa de encontrar o sono, fechei os olhos e, quase como num sonho, vislumbrei um menino remendando um barco, com um sorriso estampado no rosto. Era uma criança diante de uma situação que, para os adultos, certamente representava medo e preocupação. Mas, para ele, tudo parecia uma grande aventura.

Talvez essa seja uma das magias da infância: a capacidade de transformar o inesperado em brincadeira, o medo em curiosidade e, até mesmo diante de uma tragédia, encontrar algum motivo para sorrir.

Aquele menino era eu.

A lembrança me levou de volta a uma época em que a cidade enfrentava mais uma de suas enchentes. A água avançava por diversos bairros e, entre eles, estava aquele onde morávamos. As famílias atingidas eram encaminhadas para uma escola, que havia sido transformada em abrigo.

Para nós, crianças, entretanto, a percepção era outra.

Ao chegar à escola, encontrei vários colegas. O que para os adultos era uma tragédia, para nós começava a ganhar contornos de uma inesperada colônia de férias. Estávamos juntos, longe da rotina de casa e, apesar das circunstâncias, descobríamos maneiras de brincar, conversar e rir.

Mas havia um acontecimento que nos deixava especialmente eufóricos: a chegada do caminhão do Exército.

Era quase um evento.

Dele vinham o café com leite, o pão com manteiga e, na hora do almoço, uma massa parafuso com carne moída que, para nós, parecia a mais deliciosa das refeições. Talvez o sabor estivesse menos na comida e mais naquele momento compartilhado, na sensação de estarmos juntos e na alegria simples que uma criança consegue encontrar mesmo em meio às dificuldades.

Hoje, tantos anos depois, percebo que aquela lembrança carrega uma lição que só o tempo foi capaz de me revelar.

A vida, assim como aquela enchente, às vezes transborda, invade nossos caminhos e nos coloca diante de situações que não escolhemos. Nem sempre podemos controlar as águas que chegam, mas podemos escolher como enfrentá-las.

Naquela época, eu ainda não sabia disso. Apenas sorria, brincava e seguia em frente.

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