terça-feira, 27 de outubro de 2026

 

O Encontro

Cumprida a missão, era hora de desarmar o acampamento e seguir em frente. Ficou em nós uma profunda gratidão aos proprietários da fazenda, que nos acolheram com generosidade e forneceram toda a estrutura para o nosso trabalho. Partimos com a sensação tranquila do dever cumprido, levando na bagagem dias de surpresas, novas amizades e reencontros familiares memoráveis. Contudo, uma ponta de frustração persistia: eu ainda não tivera a chance de conhecer meu irmão.

De volta à rotina na minha cidade, guardava acesa a esperança de que nossos passos um dia se cruzassem. Imaginava como seria o momento: a alegria de finalmente vê-lo de perto, contar as minhas histórias e partilhar o que a vida ainda nos reservasse.

Até que, em uma tarde qualquer, recebi uma visita inesperada no trabalho. Era Lino, irmão dele por parte materna. De passagem pela cidade a negócios, convidou-me para jantar. Marcamos local e hora.

À noite, encontrei Lino junto ao balcão do restaurante. Cumprimentamo-nos e ele me conduziu até uma mesa onde outro homem aguardava sentado. Bastaram poucas palavras, ditas com uma simplicidade desarmante, para mudar tudo:

— Este é o teu irmão.

É impossível mensurar a comoção daquele instante. Com lágrimas nos olhos, nos fundimos em um abraço demorado — um gesto que parecia querer resgatar, de uma só vez, décadas de ausência. Faltavam palavras; sobravam sentimentos. Naquele silêncio partilhado, o abraço disse tudo o que a voz não alcançava.

Ao nos afastarmos, o espanto foi ainda maior: a semelhança com nosso pai era desconcertante. Era quase como fitá-lo em vida. Nos traços do rosto, no olhar e nas expressões, reconheci de imediato a marca viva da nossa linhagem, algo que tempo e distância jamais conseguiram apagar. Reencontrava ali um pedaço essencial da minha própria história.

A partir desse dia, decidimos reconstruir o tempo perdido. Tornei-me visita frequente em sua propriedade rural, onde ele tocava a lida da agricultura familiar. Além da lavoura, cuidava de um rebanho de ovelhas — cuja lã era tosquiada e entregue anualmente à cooperativa regional — e de algumas cabeças de gado.

Em um desses encontros, fomos recebidos com churrasco de cordeiro, preparado especialmente para honrar nossa chegada. Muito além da mesa farta, havia ali a essência da hospitalidade camponesa: a generosidade do campo, o calor do fogo de chão e a alegria despretensiosa de estarmos juntos. Entre uma conversa e outra, à beira do fogão, fomos descobrindo quem éramos e consolidando uma relação que, mesmo tardia, mostrava-se rica e promissora.

Conhecer meu irmão foi muito mais do que realizar um anseio antigo. Foi a revelação de um laço que o tempo nunca rompeu; apenas manteve em repouso, à espera da hora certa para brotar. Se os anos nos negaram a convivência do passado, o destino nos abria as portas para escrever os próximos capítulos.

Descobri, enfim, que os laços de sangue carregam uma força invisível: abrigam raízes e memórias que resistem ao esquecimento. Hoje, transformamos a distância de outrora em presença afetuosa, certos de que há encontros que chegam tarde para resgatar o que passou, mas chegam no tempo exato para ressignificar o futuro.

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

1.Descobrindo minhas raízesUma viagem ao passado, um encontro com a própria históriaHá momentos na vida em que o destino nos conduz por caminhos que jamais imaginamos percorrer. Às vezes, basta um passo em solo desconhecido para despertar sentimentos que não sabemos explicar, como se aquele lugar guardasse algo de nós, à espera de ser revelado.Foi assim que tudo começou.Nos anos 1960, durante o governo militar, foi implantado no Brasil um programa de recenseamento das propriedades rurais. Para executar esse trabalho, milhares de recenseadores foram treinados e distribuídos por todo o território nacional. A tarefa consistia em visitar proprietários e detentores de títulos de posse de terras destinadas à agricultura e à pecuária.Depois do treinamento, fui designado para trabalhar no interior do Rio Grande do Sul.Até então, aquela missão era apenas mais uma atividade profissional, uma viagem a trabalho, com endereço certo e objetivos definidos. Eu não poderia imaginar que, por trás daqueles campos, estradas de chão e propriedades rurais, a vida me reservava uma das maiores surpresas da minha existência.Mal desci do carro, senti algo inexplicável.Uma energia tomou conta de mim. Era uma sensação estranha, intensa, difícil de traduzir em palavras. Aquele lugar, embora desconhecido aos meus olhos, parecia despertar uma familiaridade que vinha de algum lugar profundo da minha memória — ou talvez de algo que eu ainda não conhecesse.Tudo me parecia familiar.Naquele instante, não encontrei explicação para o que sentia. Apenas segui em frente, sem imaginar que, pouco tempo depois, compreenderia o significado daquela sensação.Instalado na região, comecei o trabalho de recenseamento, visitando as propriedades rurais e atendendo aos seus responsáveis. Os dias transcorriam entre entrevistas, documentos e conversas com moradores daquelas terras.Até que chegou uma manhã que mudaria para sempre a minha história.Entre os primeiros atendimentos do dia, recebi duas senhoras que aparentavam ter cerca de oitenta anos. Elas apresentaram seus documentos e, enquanto examinava os dados, um detalhe chamou minha atenção: ambas tinham o mesmo sobrenome da minha avó.A coincidência me despertou a curiosidade. Comentei com elas sobre aquele sobrenome e expliquei que minha avó também o possuía.Uma das senhoras, então, perguntou:— Como se chama a sua avó?Respondi sem imaginar o que viria a seguir:— Glória.A reação foi imediata. A senhora olhou para mim e, com uma naturalidade que contrastava com o impacto de suas palavras, declarou:— Glória é minha irmã!Por alguns instantes, pareceu que o mundo havia parado.Eu estava a quilômetros de distância do lugar onde vivera minha infância, minha adolescência e boa parte da vida adulta. Ali, em uma região até então estranha para mim, acabava de descobrir um elo direto com a minha própria história.A emoção foi indescritível. Aquela mulher, que eu acabara de conhecer, era irmã da minha avó. De repente, o passado deixava de ser apenas uma lembrança distante e ganhava rosto, voz e presença.Eu estava descobrindo minhas raízes.E, naquele momento, comecei a compreender aquela sensação que havia experimentado ao pisar naquele solo. Seria apenas uma impressão? Uma coincidência? Ou a força dos laços familiares, ainda desconhecidos, manifestando-se de uma maneira que a razão não consegue explicar?Não tenho respostas para todas essas perguntas. Sei apenas que algo muito profundo aconteceu comigo naquele dia.Mas as surpresas estavam longe de terminar.À medida que a conversa avançava, entre lembranças, perguntas e descobertas, uma das senhoras, com a calma de quem revela algo importante, disse que eu tinha um irmão morando ali por perto.Dessa vez, não consegui conter a emoção.Desabei. As lágrimas vieram sem pedir licença.Eu tinha um irmão!Aquelas palavras ecoaram dentro de mim com uma força difícil de descrever. Até então, eu não conhecia aquela parte da minha história. Agora, de repente, sabia que havia alguém ligado a mim por laços de sangue, alguém que vivia naquela mesma região, sem que nossos caminhos tivessem se cruzado.Minhas tias-avós — se assim posso chamá-las — tomaram a iniciativa de organizar um encontro com outros integrantes da família.Marcado o dia, preparei-me para mais uma viagem, desta vez movido não por uma obrigação profissional, mas pela esperança de conhecer aqueles que, até então, eram desconhecidos para mim.O encontro aconteceu em uma comunidade rural. Naquela época, o cavalo ainda era um importante meio de transporte na região, e foi assim que percorremos o caminho até o local. Levamos algumas horas para chegar.A viagem, por si só, já tinha um significado especial. A cada passo, eu me aproximava de pessoas que faziam parte da minha história sem que eu soubesse. Era como se, pouco a pouco, as páginas de um livro antigo fossem sendo abertas diante de mim.Ao chegar, encontrei tios, primos e outros familiares. Rostos novos, histórias desconhecidas, sobrenomes que agora faziam sentido. Cada pessoa representava uma ligação com um passado que, até aquele momento, eu sequer imaginava conhecer.Era um dia histórico na minha vida.Mas havia uma ausência que pesava sobre todos os demais acontecimentos: meu irmão não estava presente.O principal motivo daquela reunião, aquele que eu mais desejava encontrar, não compareceu. Em seu lugar, estava representado por outro irmão dele.Confesso que senti frustração. Depois de tantas descobertas, de tanta emoção e da expectativa de finalmente conhecer meu próprio irmão, sua ausência deixou um vazio naquele encontro.Ainda assim, nada poderia apagar o que eu havia vivido.Naquele dia, conheci parte da minha família, reencontrei simbolicamente a história da minha avó e descobri que minhas raízes se estendiam por terras muito distantes daquelas onde cresci.Voltei daquele encontro carregando muito mais do que lembranças. Levei comigo novas perguntas, novos sentimentos e a certeza de que minha história era maior do que eu imaginava.Talvez alguém se pergunte por que decidi compartilhar uma lembrança tão antiga. Afinal, tantos anos se passaram desde aqueles acontecimentos.A resposta é simples: há memórias que o tempo não apaga. Algumas permanecem adormecidas, mas basta tocarmos nelas para que a emoção desperte com a mesma intensidade de antes.Enquanto escrevo estas linhas, volto a sentir um pouco daquela emoção. Revivo o instante em que ouvi que minha avó tinha uma irmã, o momento em que descobri que tinha um irmão e a alegria de encontrar tantos familiares que até então desconhecia.E volto a pensar naquela estranha energia que senti ao pisar pela primeira vez naquela terra.Hoje, olhando para trás, compreendo que aquela viagem profissional se transformou em uma jornada de descoberta pessoal. Fui ao Rio Grande do Sul para realizar um trabalho, mas a vida me conduziu a um encontro com minhas origens.Encontrei pedaços da minha história, pessoas do meu sangue e respostas para perguntas que eu nem sabia que precisava fazer.Mas uma parte dessa história ainda estava por ser vivida.O encontro com meu irmão, aquele que não aconteceu naquele primeiro dia, continuava à minha espera.E é justamente essa parte da minha história que pretendo contar na próxima postagem, ainda esta semana.Porque algumas histórias não terminam quando nos despedimos de um lugar. Às vezes, é ali que elas realmente começam.Continua

Seja bem-vindo. Hoje é